terça-feira, 2 de março de 2010

Equador



























Se Henry Miller se calasse e sua boca se enchesse de formigas antes mesmo de se mostrar um exímio amante, não me refestelaria com os belíssimos trópicos que ele declinou tão bem.
Minhas expectativas nunca ultrapassaram o Trópico de Câncer, nem o de Capricórnio, elas se equilibraram tal qual o Equador.
Não me compararia a Miller nem ao relatar o menor suspiro de desejo intenso, nem ao menos numa linha do pós-guerra, mas humana que sou, estou tomada de febre do meio.
Poderiam dizer que é a febre dos trinta e cinco, que é o frisson da idade e eu poderia discordar dizendo que é além disso. Mas é, caro leitor, a minha palavra contra a sua, nem sei se tenho argumentos para convencê-lo do contrário.
Guardei por anos um silêncio pesado entre a leveza de devaneios e gozos mais íntimos. Não soube me expressar bem. Prendi-me por motivos errados e continuo cedendo ao que a boca cala e o corpo rasga. Equilibro-me entre fazer o que quero com o que esperam de mim, um exemplo plausível de Equador Perfeito.
Nego ser uma queda de braços, ou uma luta de boxe, embora me sinta nocauteada, é uma guerra de mãos e mesmo que pareça que uma quer sustentar a outra, evitando a queda, não há força suficiente para sustentar o desencanto preso entre os dedos da esperança. A fé é fraca e com tão pouca resistência a tarefa de segurar uma das partes vai se tornando cada vez mais árdua, cada vez mais perdida.
Equatoriais meus verbos secam no pretérito perfeito do subjuntivo e eu intransitivo-me.

7 comentários:

Cesar Veneziani disse...

Texto impecável e com um final arrasador! Fã!

L. Rafael Nolli disse...

Concordo com o Cesar: o final é arrasador. Genial, Larissa. Já estou seguindo! Bjs

... disse...

Seu texto é ótimo
já...
... O Miller...
... Entre os devassos da literatura é um Buk bem comportado.
Prefiro mil x o Bukowski
O Henry Miller é o devasso best seller, odeio Sidney Sheldons e Paulos Coelhos da vida!
Pra vender muito precisa de mídia, pra ter mídia é preciso conchavo.
Eu?
Eu sou um radical contra a ditadura cultural dos meios de comunicação...
NÃO AO JABÁ...QUALQUER TIPO DE JABÁ!!!
Viva o velho Buk!

Larissa Marques disse...

Obrigada, caros!
Pablo, acredite se quiser, nunca li buk!
Um dia, quem sabe!

Enfim 40 disse...

Menina, você é boa... Seguirei você, com certeza...

Joakim Antonio disse...

Já disseram mas repito, o final é fantástico, aura do texto.

Parabéns!

Larissa Marques disse...

obrigada, amores!