Mostrando postagens com marcador Larissa Marques. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Larissa Marques. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de julho de 2013

eterno velar (da série "ecos de Maldoror")*



tocou-me com suas palavras
e seu hálito nefasto
incitou-me tormentas adormecidas
e as horas se esqueceram
do tempo e viraram prurido

apesar de tantas mortes por fumo
apesar de tantas dores sem prumo
perpetuamos essa saga mórbida
um velando o outro

o verbo permanece ferindo
meu silêncio quase falo de ruínas
quase sufoco ao ponderar no escuro

desde então vivo na fraqueza
desde então sou a miséria
espelhos queimando
um na fogueira do outro

pobres almas espelhadas





*agradecimento especial a Fransérgio Araújo, por ceder sua imagem e me apresentar Isidore Ducasse

quarta-feira, 22 de maio de 2013

venha pelas minhas botas (da série "ecos de Maldoror)*



estou tão perdido
ao despertar
caminha pelo veto
me cansei de esperas
e do morno grito
quando algo se desfaz

as flechas inimigas
só fazem derrubar
o que não tenho
e acreditam me atingir
se a faca das nuvens não afeta
possuídos impunes
quem sou eu para me rebelar?

venha pelo vivenciar cúmulos
pelo praguejar de deuses
não encontro textura dos beijos
nas desistências colecionadas
entre as meias finas furadas
e sem aspas o desespero inexiste

vê que estou aqui a salvo
mesmo que as harpas
toquem sinais de morte
isso é placebo para o veneno
rendez-vous para desavisados
festa aberta para doidivanas

é tanto e pouco na tortura
que no encolher do verso
a nervura reclama aflita
amai o tóxico como a ti
mesmo.






*agradecimento especial a Fransérgio Araújo, por ceder sua imagem, inspirar o poema e me apresentar Isidore Ducasse

segunda-feira, 22 de abril de 2013

alma costurada (da série ecos de Maldoror)*



devia saber desde o começo
o que fazia quando chorava
todas as xícaras quebradas
e ideais jogados no tempo
quantas vezes ligou à noite
quanto tempo apostou em nada?

mas sempre foi o ritmo das estocadas
que ditava o pulsar das veias
pequenas faíscas
virando incêndios incontroláveis
e é aí que o dilema habita
na forma voraz de consumo

e ainda ressoa a velha pergunta
“o que quer de mim, baby?”
então, a velha pergunta
“o que quer de mim, baby?

pois querem o que não
poderia ser sugado
por nenhuma língua
é mais que isso
é desejar em segredo
a pior dor que se pode causar

desmancha a costura
o homem fora de sincronia
sem eixo e queimando
em seu próprio jogo
tentando achar outro tipo
de ligação interna


*agradecimento especial a Fransérgio Araújo, por ceder sua imagem e me apresentar Isidore Ducasse





sexta-feira, 22 de março de 2013

ode ao não (da série ecos de Maldoror)*




quem me dera ter as palavras certas
para retratar esse ser aturdido
dono do ego magoado que marca
os cantos alheios

poderia sonhar a esperança
mansa de liberdade
não, não mesmo
jaz aqui qualquer cegueira

peço que não blasfeme a realidade
ou a pontue com mesmices amadoras
ou coloque em minha pele
ignorâncias amenas e gentis

houve o momento para a ilusão maior
hoje ela titubeia como as luzes dessas velas
acesas, quentes, mas ao mesmo tão inocentes
diante da vasta sombra universal

essa que equilibra a dicotomia
dos sonetos móveis e patéticos
das paixões que sangram
do movimento vão de viver

vejo claramente seus lábios delineados da negrura
como se tivesse beijado de língua o infinito
enquanto o desespero enrabava meus sonhos

agora o estar se desespera
sob as lentes escuras
que refletem a incógnita ironia
nesse estado de fato febril

sim, dessas mãos só espero o tapa
a punhalada e o soco
em suma, a traição
pois a carícia real é a que causa dor

e esse transpirar ocre quase esverdeado
é o que nos benze de sanidade
abra bem os sentires e aceite
que o olho esquerdo
é o que move a redenção





*agradecimento especial a Fransérgio Araújo, por ceder sua imagem, inspirar o poema e me apresentar Isidore Ducasse



quinta-feira, 17 de maio de 2012

uma lembrança para Godot (em construção)




reencontro

já não sou a mesma pessoa que vi há dez anos, quanto mais o tempo passa mais entendo o quanto é difícil me reencontrar, mesmo que isso demore e cada vez que acontece saio mais e mais arrasada. não pense que tem sido fácil me ignorar por todos esses anos pedindo socorro pelos espelhos, por vezes dando de cara comigo até no fundo de colheres. essa sensação de me sentir invadida e inquirida por meus olhos é devastadora. entender que não me conheço e que sou meu maior algoz me revira o estômago e me faz agonizar. quem dera derreter, como o açúcar, no fundo das xícaras de chá.


contido

não importa por onde começamos ou se há como rasgar tudo como um roteiro mal escrito e colar as partes de modo contínuo e que faça algum sentido, se é que isso importa, pois no fim nada mais é sentido mesmo. mostre-me que está vivo e me faça sofrer ao invés de gritar de tédio. não há vítimas aqui, entreguei minha cara a tapas e o corpo aos vermes e antes que algum deles me tome como morta mostre-me do que é feito, o que é real e feio, tudo que eu nem queria ver e eu choraria por todos os outros se tivesse aprendido a chorar por mim.

confissão

 quero preencher meus dias com literatura de boa qualidade, mas sem me preocupar muito com isso. passei anos de minha vida me prendendo ao fato de escrever algo bom e admirável. hoje vejo que a simplicidade habita as coisas mais belas que já toquei e como tive e tenho muitas coisas assim, sei que posso transcrever da maneira mais simples que conheço, uma vida profunda e repleta da matéria de que sou feita.


ressaca

para dois seres sensíveis e machucados meias palavras não cabem, então a tarde caiu leve, nos embriagamos com Manoel de Barros e sorrimos. a noite correu falante, pouco álcool e muita poesia, para dois poetas o bastante. a madrugada reservou um banho de piscina e a lembrança de tantos erros, copos vazios e almas cheias. ao amanhecer chuva forte e janelas abertas, Neruda e Pessoa molhados no chão. palavras encharcadas e inteiras.


baldio

quem é esse homem que brada e berra à procura de redenção e ainda se sente tão preso ao ego? a quem esse mesmo homem pede quando suas tábuas somem, enquanto seu bote afunda? outro dia, observando você dormir entendi quem é esse náufrago que descansa sobre minha cama, entre meus lençóis. compreendi a quem ele recorre quando outras mãos falham e nada mais pode salvá-lo.


suor

acordei mais cedo que o de costume, aliás não dormi mais que duas horas...
nessas fases de pouco sono e literatura transbordando pelos poros, lembro-me de que matéria somos feitos.
tenho amado você nesses dias. não há porque esconder o sentimento que salta aos olhos e enriquece as palavras.


¾

revirei as gavetas da escrivaninha hoje, procurando um texto que jurava ter anotado, mas na procura em algum momento me convenci que não havia feito. e sem encontrar o que não passava de mera miragem de minhas lembranças encontrei um retrato seu, um bem pequeno desses três por quatro que nos mostram exatamente como somos, livres de adornos ou sorrisos mascarados. esqueci-me do que poderia ter escrito naquele pedaço de papel que não existiu e sorri, quase me confidenciando algo que sempre soube. que meia dúzia é mesmo seis, que uma dúzia é dose e que não se troca três por quatro e trocamos.



vapor

senti sua falta de uma maneira que jamais senti. seu silêncio acompanha-me nos banhos matinais que batizo com seu nome, quanta ternura posso encontrar num banho morno? sim, pois o que ferve não é a água e o que fere não é o não dito. o espelho estava embaçado e tirei a toalha que me envolvia para me ver melhor, nunca vi meus olhos tão opacos como agora.


insônia

não dividi meus segredos, pois repartir tira-me o sono. não direi desaguei meus engodos e que em algum momento abri meu coração. nunca achei justo sujar águas claras em falácias pernoitadas. foi-se o tempo que dava espaço para estrangeiros, que apenas esquentam a cama e na manhã seguinte abandonam minha morada. mas saiba que me dói ainda a lembrança de vê-lo sair. foi único que partiu deixando-me suas lágrimas em meus olhos.


paramare

não farão falta as flores de plástico que deixara sobre o balcão, mas falhou na noite passada. o relógio batia insistente a melodia que já sabemos de cor. pobre da moça que encontrá-las e enfeitar com elas o coração. a jardineira daqui não é obstáculo, nem foi colocada ali como um adorno de janela, amado. é só um lembrete de como tudo é breve e belo, um suspiro perfumado de vida, paraísos artificiais. não arrancaria nenhuma delas para você, trazem a essência rara das horas que perco ao regá-las. tempo que não temos para o agora.


alento


as coisas têm nos afastado, não é querido? o coração está bem, mas não consigo parar de fumar, o que é ruim. mas o que não é? estou amando, como sempre... coração vagabundo, como diz Caetano! me divirto com meus mancos, como sempre e a saudade de você é enorme, tem o dom de me reanimar! meu texto de Kerouac está aqui, crescendo e crescendo, como um diário de bordo mal escrito e pouco reverberado. saber de sua vida é uma tábua de salvação, um arquipélago baldio nessa vastidão de mar revolto! pesa-me a idade e os sorrisos já estão gastos quase tanto como a pele, não tenho o mesmo visco. ando até meio aborrecida, pois as coisas, quando convalescemos, se tornam mais lentas e monótonas. mas não me queixo a vida é gueixa querendo se dar!


inércia

decerto a mansidão do deserto se curve à imensidão das águas, mas enquanto não, seco. é o calo em desalinho, forma obscura de um tempo vão. onde não há amar ou fúria, onde se cala a devassidão. esse seu rosto cálido, descrito em conta de arrimo é só a fuga de um querer pobre que não quer cura. decreto é a luxúria de se entregar a outros corpos enquanto só se deseja a solidão.


desilusão

mostrou-me a realidade turva para uma manhã chuvosa, independente da transa da noite passada, não com você, faço odes poéticas ao que vivi e se é a isso que se resume toda a histeria e febre humana: "uma boa e bela foda", que seja! e se ela vier bem acompanhada da ilusão, de bebida barata e promessas frívolas, melhor ainda! quem já teve o corpo rasgado não só por falos, mas também por faca afiada não se daria ao luxo do amor puro e imaculado. faço coro, é boa hora para um café amargo, meu amado!



ainda o café

acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo.


horizontes

sou alucinada, pois admito que há tons e tons. e onde uns distinguem apenas o branco e o negro, o contraste do papel com as palavras de poeta qualquer, eu vejo cores. renega o que sente, esse rubor nas vísceras, essa paixão desesperada que não ousa relatar e faz-se míope. deixo que furem-me os olhos mas não nego a fúria, dessa que se enxerga vermelho em manchetes de crimes passionais, amarelo em classificados de domingo e verde do fundo de amanheceres quadrados dentro de garrafas vazias de bebida.


lamento

quando saí de sua casa, naquele domingo fatídico, as coisas desabaram sobre de mim, encobrindo parte do que sou e todos os meus passos. antes do avião alçar voo e me trazer de volta à rotina, os pulmões esvaziaram e as palavras calaram num só grito, até o fim do fôlego e com o passar dos meses desisti de chamar. tudo que via era brisa sua vindo em minha direção e disparando os alarmes de solidão. com o tempo não havia mais vento à espreita ou esperas furtivas, só há agora esse silêncio aterrador.


despeito

para que serve o amor, afinal? uns diriam que serve para resgatar almas perdidas e trazer o milagre da auto-aceitação. outros diriam que serve para inundar os corpos de hormônios, feromônios, suor, odores desagradáveis e satisfação celular. para tantos outros um amor só serve para curar outro. a partir de hoje, me entregarei ao mau gosto barato, desses vendidos pelas putas e suas meias arrastão furadas, em becos escuros e pontas de rua, afinal nunca duvidei que nasci para as sarjetas.

benzedura

é urgente que se cale a palavra, sim essa que desbota ao sol do meio-dia da mesma forma que descolora na boca da noite. essa que embolora em minha língua enquanto a sua não chega entre meus seios. que me tenha em silêncio, pois ele é bento. e peço que não deixe que as mulheres de Chico morram em mim, assim como aquele amor que cantou Vandré, o refrão que dizia que a tristeza não é de amar. os lençóis desarrumados só se vingam das horas de espera no portão e ambos silenciosos são o retrato desses olhos tristes, mas não vencidos. o que perdura é o querer, nada além dele vence as escadas da vida e a cadeira do alpendre que dá acesso à sala. e quanto tempo ainda hei de esperar para que rompa os meus terreiros livres e veja a saia da nega rodando e rodando?


pílulas azuis

viver nesses tempos é perigoso para a saúde mental, tenho muitos conhecidos e o que muda é apenas o tipo do vício, como se houvesse remédio para se adaptar. dourar pílulas faz pessoas melhores? pensar suavemente agrada a todos e ser polido é mais que escolha é coerção. o que dizer em assembléias de condomínio? como abafar os gritos para não acordar seu vizinho? cada silêncio imposto é mais uma morte que chega sem abalar a ordem pública. tudo que é óbvio demais e passa batido, qualquer dor ou lacuna pode ser preenchido por tarjas preta. tenho amigo que desistiu de ter opinião própria, que chora à noite escondido, perdeu sua libido e faz tratamentos contra a falta de ereção.


paradoxo

é bem o que era, a liberdade de ter o que quisesse e se sentir um escravo daquele par de pernas e dos desejos que habitavam entre elas. não há vilão em história alguma, são pessoas procurando alcançar aquilo que se perdeu há muito tempo que mal se lembram se existiu realmente. humanos, o mais humanos possíveis é assim que todos são, com preâmbulos, enredo e notas finais e talvez um medo de si mesmo ou uma breve insegurança. não existe ninguém cem por cento seguro, por mais que se profira em palavras, isso é um erro de juventude, achar que pode contra tudo, inocência.


exceção

e bem dito que pouco faria diferença, se tudo é mesmo em vão, exceto a dor. já dizia Schopenhauer, _ “Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode dizer-se que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim, que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo, seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra". sim, e que venham os crentes dizer que é mesmo blasfêmia não ostentar um deus displicente e sádico, que coloca suas crias à mendigar, se ferir e se matar a pretexto de aprendizado, aprender pra que? aprender por que? se a via de regra pode mais quem faz pior. não pedi para ser e mesmo assim sou, como meus filhos o são e perpetuam a tristeza de meus olhos, tudo é vão, exceto a dor.


sem conforto

não direi que lhe avisei, não vale a pena espezinhar quem já está no chão e descobriu a friagem das certezas de não ter nada, de não ser nada e ainda assim sofrer. nem repetirei fórmulas de felicidade romântica que agradariam seu coração cansado de tentar amar. nem ao menos sorriria pra você e o confortaria com um conselho amigo. sabe bem que não sou dessas que enganam, mas também não seria honesta se não dissesse que me fere vê-lo dessa forma, tão vencido e entregue ao caos. já passei por isso, meu querido, sei bem o que é a dor e na carne da gente a chaga é muito maior.


déjà vu

a lembrança que me veio foi da noite que passei em claro, velando seu sono. os cabelos debruçaram sobre a face branda e por vezes sorria. ainda me afeta o fato de olhar você dormindo e me pergunto como pode um menino repousar dentro de um corpo de homem. a respiração era forte, constante e o ar estava cheio de esporos de Manoel de Barros. sou suspeita, mesmo me deletando nesse olhar lascivo, já me apaixonei por poetas do século passado, engravidei de línguas mortas e palavras que já não são ditas. a gestação não termina nunca e vivo parindo poesia etérea e enganos.

sufrágio

ei, me dê sua mão, ascenda um último cigarro pra mim, quero ter o gosto de sua boca mais uma vez no filtro e assim jamais me sentirei só, mesmo estando distante e de olhos tão vidrados. as coisas estão mesmo dando errado e parece que o refrão das músicas é sempre um clichê, que todo amante é michê, mas posso dizer que as saias de tule, os batons e os sapatos vermelhos, assim como os beijos no espelho foram abandonados. é que os votos se foram bem antes de agora, bem antes de juntar suas coisas e ir embora.

nocaute

não olhe para trás quando estiver estendido, frágil e sangrando depois de receber mais um golpe baixo de seu adversário e perder outro round. não pense que poderia ter mudado tudo se tivesse agido diferente, se tivesse outra estratégia. não, Godot, não seria diferente. o chão é o limite onde não existe fundo do poço e dramas surreais. tudo é luta contínua, numas se ganha, noutras se perde, defendendo exatamente a mesma coisa que seu opositor defende e ambos mal sabem o que é. dito isso, não pense em honra ou em vingança. erga-se e respire fundo, levante a guarda, pois seja jab ou cruzado, gancho ou direto, o soco é o padrão mais concreto que conheço.


fugidiço

é esse olhar que trago agora, esse que quer ir à forra, mas que se devota ao asfalto e o vê de modo tão diferente que nem lhe atinge mais o negrume e a resiliência. e se me escondo sob a sombra da obediência ou sob a raia da rendição, dissimulo. não tome como ganha a batalha do porvir, a cor dos sapatos ou a falta deles confundem o passo do ser oprimido. e assim calado, tomado de fúria e dúvidas indigentes retoma forças e recorre ao visceral, que é de luta a realidade vigente.



agonia

nem o folk poderia fazer por mim o que a poesia não faz. queria voltar à inocência de tenra idade. sinto tanto e com tamanha insistência esse desejo de esquecer, que quanto mais penso, mais essa mágoa se instala em meu ser. o sentimento parece tão endurecido e cheguei a achar que era dormência. quando tantos ruídos se misturam supõe-se silêncio. quem dera eu lembrasse o que é ter paz, que cantar o desespero já não alivia mais a dor.

nova

e o ciclo da lua que seus olhos seguem, nessa semana não tem luar. permaneço só, como jamais deveria ter deixado de ser. é que me faz falta. as noites perduram insistentes e as madrugadas se tornam cada vez mais frias. não sei o que me comove mais, se são as lembranças de suas falas escassas e arredias ou se é a saudade sua voz grave que ainda teima em chamar meu nome.

sinfonia

esse silêncio me deixa aflita e perdida, soa-me privação, tortura, uma certa dose de falta de bem querer. não importa o quanto me castigue, nem o quanto se cale, estarei aqui esperando quando sair disso. por agora minha serenidade ainda não me abandonou e enquanto ela estiver comigo, recordar-me-ei apenas de suas palavras amenas e suas composições mais amorosas.

muros

tenho coroado o mundo, e todas as pessoas de meu círculo, com a mesma solidão que me impõe. e ao invés de me curar disso, me jogo cada vez mais nessas trincheiras e me escondo em bunkers impenetráveis que construí. já não sei se é uma tentativa tresloucada de me proteger, ou se é a maneira que encontrei pra acabar comigo de vez. seu argumento é que não me impõe nada e que precisa de seu silêncio assim como eu preciso de sua presença. não sei o que faço comigo, não sei de mais nada. sinto que cheguei na última boneca matrioska. 


toque

quebrei o silêncio com mais uma ligação, uma entre uma dezena nesse último mês, em vão. não quer me atender, eu quis falar com você, talvez mais que em outros tempos, quando as coisas eram amenas e sorríamos à toa. vi a expressão mais vazia em mim ao me olhar no espelho. talvez vazia não seja a palavra, sinto-me um artefato bélico, uma granada pronta para explodir. meus amigos mais próximos perceberam que eu mudei e para pior, dizem. já fui algoz e me preocupava menos com meus sentimentos. agora sangro e me preocupo.

engasgo

ontem fui visitar um amigo, doença terminal, talvez cansado de viver e consciente. ele ainda conseguia sorrir, mesmo sabendo que era grave e terminal, conseguia fazer piada de sua situação e parecia querer confortar os que o amavam e estavam à sua volta. Godot, estou aos prantos, hoje pela manhã ele faleceu, e eu, meu caro, não sei o que dizer, não sei o que dizer... minha retórica é dos tempos pessimistas, em que ainda havia algo para dizer, mas agora já não tenho, não mesmo.

velado

há nisso tudo uma tristeza imensa, pois no fundo sabemos que iremos partir. seja para seguir nossos caminhos, seja para encontrar novos horizonte, ou até mesmo ir para não mais voltar. pois bem, dito isso, vejo aquele que um dia me foi importante indo e ver o outro partir é mais que dor. e perpetro aqui a tristeza maior da despedida última, onde só se pode dar aquele olhar mareado, o abraço aperta
do que só poderá ser respondido com frieza, pois não haverão mais respostas. vá meu amigo, sei que para onde vai, ou já foi, não existe espaço para volta ou arrependimentos, vá livre, pois o coração aqui chora, a alma berra e nessas horas não há consolo.

pernóstica

é o adjetivo que gosta de usar para me definir, ou para me irritar, por vezes. admito que sou e que ele cabe bem em mim, não sou medrosa com tudo. o medo que alimento é do sentimento que tenho por você. minhas palavras posso usar com orgulho e altivez, elas me levam exatamente onde quero ir e onde quero que as pessoas estejam. não chamaria isso de pedantismo, embora soe um tanto presumido. sim, assumo o peso de minhas faltas, assim como dos excessos. ainda não encontrei o equilíbrio perfeito, nem sei se é o que procuro, mas direi que sigo tentando.


mouro

ele está perdido em areia movediça, o cavalo que monta é inteiro e arisco e foi batizado pelo tempo. prefere a liberdade à gaiola em que habito, ri de minha loucura, desdenha de mim e diz que tudo é besteira. talvez tenha razão e ainda assim, mesmo se voltando para o deserto silencioso, sigo amando meu mouro, quem dera meu. só queria me livrar de tudo isso. quem sabe, em silêncio, ele cavalgue nas areias de minha ampulheta.

reminiscências

lembro-me da praia, da primeira vez que pisei na areia, da onda que pousou sobre meus pés, há muita gente que resolve entrar em sua fantasia, mas não todos. resolvi abandonar-me como aquela onda , a maré, as inconstâncias gravitacionais, à mercê da lua e do vento. sim, poderia dizer a você que estou inundada daquele azul imenso do começo de tudo que está em mim, ou ceder aos sons que me invadem, dizendo que somos resultado de nossa infância, mas não tenho saudade da minha, e por vezes me vejo em lugares que nunca fui e me acompanham pessoas que nunca vi, mas que me sorriem como se fosse amada, me vejo bem mais velha do que sou realmente, tenho visões distorcidas do que me rodeia. acho que você não existe, e que quando quer brinca comigo, como um cão que encontra uma boneca velha sem uso, como podemos perder tanto assim?



há tempos esqueci de dar valor ao que era certo para todo mundo e voltei-me ao que era correto para mim, mesmo não sendo tão reto e nem tão meu assim. não sou especial por me afastar dos outros, nem tão pouco por não me adaptar à meiguice que me pedem. e porque seria especial se nasci como a maioria, se cresci e vendo o desnecessário e se a poeira de meu fim será breve como a de todos?


nula

endureci muito depois de ontem, há coisas que não passam em branco, por mais que eu tente a realidade é essa que vivo, sem floreios, sem interjeições pacificadoras ou falas heróicas. é o que é, sou o que sou e expectativas, mesmo que mínimas, são nocivas a qualquer relação, verdadeira ou não. sucumbi ao tempo que me dediquei aos seus pés e ao seu som, mas não estou mais disposta e virei as costas, como virei a tudo que já amei um dia. vínculos? esses você não tem nem quer e eu tenho muitos que também não quero. e a linha é bem essa: seguimos tendo o que não queremos e desprezando o que temos, até perdermos mais alguma coisa, mesmo que a afirmativa seja não ter mais nada.

cacos

não gosto de vasos de vidro, nem de garrafas inteiras, são como um chamado ao caos, um pedido de quebra e quanto mais me deparo com rupturas irremediáveis mais amo os cacos, as catarses, mosaicos que se colam perfeitamente com a realidade torpe que se apresenta. nada é tão belo quanto observar as pessoas por ângulos diferentes, notar que as inteiras têm tão pouco a oferecer e as despedaçadas são universos passionais divididos entre a dor, a esperança e a fúria.

peles

beijou-me uma pinta no seio esquerdo, mordeu-me a do seio direito e se calou quando pousou a boca sobre minhas marcas secretas. é que as facas ferem mais que impressões superficiais e ficam para sempre. sim, pode sorrir quando tocar minhas marcas, mas ao encontrar as cicatrizes sei que haverá silêncio e compaixão.

cômoda

deveria ater-me apenas ao presente e imperá-lo como os grandes mestres da calma e passividade, mas não sou religiosa. aprendi a recitar seu nome quando não está comigo e esse mantra me acalenta por um tempo. queria ter a sabedoria dos gatos, construir meu espaço seguro e pacientemente esperar o carinho daqueles que me são gratos apenas pelo que sou. quem sabe sorrir enquanto durmo manso, com as patas para o ar, sobre a cômoda do quarto, mesmo sabendo das bardanas e das lagartas que as devoram. mesmo sabendo que a mão do dono que afaga é a mesma que doutrina.

verbete

poderia reclamar do sofrimento que me causa ao se calar, esmiuçar as perdas que tive, quando me abandonou. sei que nunca foi meu e alguma hora me conforto. ninguém morre por ausência alheia, isso é coisa de romance de século XIX. concordo, está agindo com dignidade me afastando. assim não haverá desculpas ou portas abertas, plano b para uma possível volta. não me fez promessas. certeiro é o silêncio, a melhor das travas, mais eficiente que o verbo inteiro ou meias palavras.




alvorada

ao olhar-me no espelho de manhã, escovando meus dentes, me encaro e admito que olhar fundo em mim é difícil, muito difícil. vejo os olhos de meu pai, o queixo de minha mãe e muita coisa além disso. não há paixões, não há melancolia, ou qualquer sentimento que não seja angústia. desde cedo, assumi minha figura de maneira rígida, sem manifestar interesse profundo e até bem pouco tempo atrás não me conhecia direito. agora, tenho tido a coragem de me perguntar coisas que jamais ousei tocar.

monalisas

nunca achei que era como os outros, Godot. há algo em você que me irrita profundamente, assim como há uma força de empuxo que me arrasta para seus olhos, sem que eu possa me defender disso. alguns homens têm o péssimo hábito de comparar as mulheres entre si, como se ser mulher fosse algo comum e raso. todos podem ter cópias de Monalisa, podem ser comparadas à Monalisas, serem falsas Monalisas, reza a lenda que a verdadeira está exposta no Louvre, mas acredito que ela está perdida eternamente nos olhos de Leonardo. 


saldo

posso ser frágil, mas tenho orgulho que está ferido, como esteve tantas vezes enquanto me deixei afligir por esse sentimento. mas não vou me fazer de vítima, ou me vangloriar que superei você, pois em qualquer uma dessas premissas estaria faltando com a verdade. mais que nunca quero ser forte, mais que tudo quero superar esse momento. não precisa se fingir de ausente ou se esconder por trás desse silêncio. sigo agora meu caminho.


polos opostos

parecia evidenciado que somos opostos, mas vejo isso com mais clareza, não somos de jogos e isso deve ter nos afastado. eu procurando a liberdade e a falta de compromisso e você se apegando à velha aliança de Midas que já fracassara há algum tempo. as aparências enganam, na verdade eu sempre honrei os compromissos que assumi até hoje e, por dignidade ou senso, os mantenho livres de minhas inconstâncias, enquanto você não assume vínculos e não admite a possibilidade de que as pessoas ainda possam confessar os sentimentos mais puros, sem estar procurando fugas temporárias da realidade. a única certeza que tenho é que estamos com medo e o medo acaba com quase tudo que não seja ele mesmo.


trapo

nunca gostei desses joguinhos de amor, nem dessas armadilhas de paixão, avisei que eu não era boa, avisei que não fui feita para agradar ninguém. ultimamente tenho me rasgado demais, pois tem me colocado mais à prova do que estou acostumada, aliás minha credibilidade só é nula para seus exigentes padrões. ser um embuste sempre custou-me menos que ser verdadeira, apesar disso nunca me privei de me mostrar inteira e nua a quem amo, mas toda lição é válida. e se essa valeu, foi para provar minha teoria de que ninguém ama incondicionalmente, nem mesmo eu.


memória

quem dera encontrasse o segredo suspenso, quase sem ar, o verbo perfeito desses que se rasga em esquinas passadas e mortas e ainda tão lembradas e revisitadas. nada que é cotidiano é tão forte quanto o inesperado e quem dera tivesse sucumbido ao beijo que me deu impune, se é que saímos impunes de qualquer coisa. quisera eu ter sobrevivido para além dele. não tenho a palavra perfeita e quem tem só fala uma vez, não fica lapidando a brutalidade de outras incrustadas no peito ou crucificando as que ficam engastalhadas na goela seca e inerte. assim, jamais esquecerei da voz de Manoel de Barros, ou da sua, que ouvi com atenção, naquele dia. desinventar não é mais fácil que inventar, o berço de um filho que não veio, as gotas da pia do banheiro ou o mofo que insistia no canto da sala de estar, mas sabemos que esquecer seria bem menos doído que lembrar.

entrega
as moças de família ficariam quietas, esperariam santas a sua volta, suportam faltas silenciosas, se movem com delicadeza, como se não tivessem vontades berrando em cores de Frida Kahlo. usam perfumes finos e esperam ser seduzidas, como se isso não fosse papel delas. seus narizes empinados cortam o vento e eu não sou assim. excito você porque não sou assim e se tudo que me oferece hoje é uma punheta, quero-a de bom grado, se isso me levar um pouco mais perto de seu corpo e de sua vontade, toque-se pensando que ainda há desejo aqui. pense em minha boca que tantas vezes disse o seu nome e com desespero abocanhou-lhe rijo e teso. sim, tenho saudades, seu lugar ainda é seu por merecimento. não encontrei quem o substituísse à altura. sou de uma simplicidade burlesca, de uma sagacidade pagã, há quem me julgue passional e impulsiva, quem disse que eu ligo?

sambinha

se soubesse que chegaria tão cedo, não teria bebido o porre de vodca dessa madrugada, relendo as suas cartas e não estaria com esse cheiro de choro amanhecido, nem com esses olhos inchados. não pedi dinheiro algum, nem sabia onde estava e fiquei esse tempo todo sem notícias. acho que a bebida afeta mais seus miolos que os meus. não tenho cuidado nem de mim nesses últimos tempos, então não me venha falar de seu retrato. o telhado está cheio de goteiras e não tive forças para subir e consertar, mas coloque o vinil do Pixinguinha, me beije e mate minha fome, juro que depois mato todas as suas.


lira

não há indiferença nesses olhos amanhecidos, enquanto sinto você por perto, amado. espero que tenha entendido que o que não quero é sofrer por algo efêmero, mas tudo é. não há dor maior que acordar com isso, pedir cordas e se jogar no asfalto, como se fosse tudo que temos. e se não soubesse de nossos lençóis revirados e carregados com nosso cheiro, das garrafas vazias e dessas marcas na pele, poderia jurar que não há amor.  nunca acreditei em contos de fada, ou histórias da carochinha, o cotidiano não contabiliza ganhos na distância, nem as queloides que a ilusão acentua. e se tem o coração batido, saiba que o meu por esperança ou dolo, segue o mesmo ritmo do seu.


concreto

sei que não conseguirei arrancar essa dor que traz, nem tampouco aliviar essa angústia cimentada em seu peito. a noite é cega e me faz lembrar do que me disse uma vez sobre a vida ser preta, sobre a vida ser branca e nesse contexto não há tons de cinza, amado. a metáfora é certeira e sua fala é exata. somos privados de sanidade quando assumimos o risco de amar, quando nos entregamos ao desejo. e reitero que somos aqueles lençóis, embriaguez e nossas marcas. sei que tudo é transitório, mas ainda não me acostumei com isso.

plateia

apeteceu-me, por um tempo, olhar as pessoas como peças móveis em um tabuleiro, tendo a visão que estavam em seus pequenos casulos sociais, tecendo seus fios de hipocrisias e medos. nessa época não me considerava gente e aceitava quase impune meu papel de pequeno e irrelevante observador. agora sofro por me ver presa nesse mesmo casulo e amarrada com as mesmas cordas.





reestreia

sim, os antigos personagens com suas experiências bizarras e passagens invisíveis estão de volta. e são eles os que mais prosperam e proliferam nessas pequenas chances que dão a mim. as viagens alheias se tornam auto-biográficas, mas a caneta esferográfica não distingue nada. as grandes jornadas são feitas no silêncio mais profundo que conheço e que é possível. as ondas de meu velho rádio de pilha só repetem músicas que me pedem paciência. um passo de cada vez, depois de tantos, sem pensar que tudo está à beira do mesmo abismo colossal. as notas destoantes e cacofônicas nascem da simbiose do medo e do encontro de olhares catatônicos.

ano novo

estou farta das superfícies, por isso fujo dos jantares de fim de ano, por isso fujo das pessoas que um dia amei. poderia dizer que quero a solidão, mas é mentira. poderia dizer que quero o silêncio, mas continuaria mentindo. é que quando estamos sós temos certas coragens que nos faltam em público, é que ali no silêncio desassossegado, que bem citou Pessoa, todos estão propensos à verdades afiadas. sabe que me provoca profundidades. vir à tona, tomar fôlego até o pulmão quase estourar e voltar à lama, ao lodo que só se acha no fundo. sabe que instiga o pior que há em mim e mesmo que diga: "a faca é cega", eu digo, amado, meus olhos de pedra conseguem amolá-la, para furar os outros como bem me ensinou. tenho que expurgar essa personagem que toma conta de meu cotidiano, ontem passei a noite olhando para ela, que é a fumaça de meus cigarros, que é minha inspiração e minha expiação. rememoro cada prego da cruz, porque é isso que dá vida e faz sangrar. e reafirmar que ela não sou eu não melhora em nada a minha condição de sua escrava. finjo, dissimulo em febre quase gentil, como se não fosse minha essa dor que toma e tomará tudo que me é importante. minha pele tem muitas quelóides provocadas por lembranças suas e não suporto mais. e mesmo rejeitando esse sentimento calmo e nocivo permaneço alimentando o que machuca e deixa marcas. e nem deveria perder meu tempo nessa mesma tecla preta do piano. por quantas vezes foi possível repeti que abandonei aquele estágio dicotômico de amor e asco. e assumo, assumo mil vezes, que trago aqui esta falha de caráter, uma fuga insana da realidade torpe que rasga todo o tempo, mas quem disse que consigo renegar isso?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Trópico de capricórnio


qual ficção celeste
essa linha imaginária
transfigura mapas
e ameniza calores

se não fosse o paralelo sul
onde meu equador abranda
seria liberta a febre tropical
que consome certos limites

hei de controlar meus solstícios
e essa desistência opaca
quase uma declinação ao frágil

hei de controlar as dores
e essa permanência estática
esse meridional em mim

quinta-feira, 9 de junho de 2011


























estou farta de antropofagias
e de engolir o que não posso
digerir
são tantas nervuras e ditaduras
que mesmo que me engolisse
mil vezes não alcançaria
o centro do prato

estou farta de antropofagias
que me fazem comer pele
a carne e os olhos
e me fazem esquecer das vísceras
da bile
do coração
e dos intestinos

quero a pirofagia
deglutir o que queima
dilacera e dói no centro
e não deixa os olhos impunes

quero a queima do passado
não por esquecimento
mas por força do presente
que é o que tenho nas mãos.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Alice despedaçada

Sonhei com outro presente para mim, que não incluísse bebedeira e filhos bastardos para criar. As meias arrastão e a jogatina acompanhada de bebida forte me abrandavam devaneios. Mas minha perdição era a fumaça do cigarro que me fazia voar.
Veio cair em minha mão nada mais que um ás e uma rainha de copas. Olhava para as expressões pacíficas de outros jogadores, mas aquele jogo era o que menos importava. Sem xícaras de chá ou botões na lapela do Chapeleiro Louco, dodôs ou qualquer outra coisa que viesse da terra dos espelhos, eu era igual a todas as outras.
Não fosse aquela rainha de copas mal me lembraria de quem fui.

quarta-feira, 30 de março de 2011

trópico de capricórnio

qual ficção celeste
essa linha imaginária
transfigura mapas
e ameniza calores

se não fosse o paralelo sul
onde meu equador abranda
seria liberta a febre tropical
que consome certos limites

hei de controlar meus solstícios
e essa desistência opaca
quase uma declinação ao frágil

hei de controlar as dores
e essa permanência estática
esse meridional em mim

quarta-feira, 2 de março de 2011

Emir

Vivo de invencionices para não morrer sufocada pelo querer utópico e egoísta, para não declinar sob sua adaga, na esperança de perpetuar algo aqui em mim dessas mil e uma noites, pois tudo tem fim.
Sou escritora, não poderia ser diferente, entrego-me aos pensamentos inventivos e quero ainda tomar os de todos que estão à minha volta.
Minha poesia é madrugadora e por vezes não me deixa dormir, os versos me estupram, roubam-me a fala, tomam-me o sono matinal.
Fujo do que não entendo, temo o que não entendo e nessa pressa da fuga não trago muita coisa, talvez pouco mais que minhas palavras e imaginação, quem além delas me salvariam do fio aço dos amanheceres rotineiros e quase vazios?
Os olhos trazem cada vez mais farpas de sonhos que foram ficando pelos caminhos, de contos mal feitos, de poesias não terminadas, de palavras sufocadas na ânsia de berrar.
E quantas delas já caíram no esquecimento e nem tentarão sair do cemitério que é meu peito desvalido?
A força que trago em minha carne não é mais que o querer que trago em minha boca falida, por isso caro Emir, não me deixo dormir.
Ao sussurrar histórias mentirosas em seus ouvidos, não era ilusão que costurava naquela colcha de retalhos azul e vermelho. O que eu tentei foram as notas ludibriosas e gentis de Sherazade.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

dorme,





















e quando acorda nada diz
enquanto ela veste o manto negro
e sai

desce as escadas
sem olhar pra trás
tomada de algo novo
quase nocivo

rememora o caminho
de volta e ignora
a Constante Ramos
com a Barata Ribeiro

esquece suas unhas carmim
que defloraram o úbere
e as horas insones
sobre o dorso dele

dorme,
que foi só um sonho bom
e ela só levou sua pele
sob as unhas
e deixou gozo sobre seus ais

a mulher adormece deusa
e acorda puta
cata suas sombras
disformes, inodoras
e some

dorme,
e quando acordar nada diz
enquanto ele se cala sob o negro
e vai.

domingo, 9 de janeiro de 2011

não vê


















nada tenho de valor
nem esse grito não tem valia
e choro sem ter o que pedir?

agora sei o quem sou
observo esse pote vazio
sem vontades ou caprichos

naveguei por tantos mares
estou dura como pedra
de tão leve e oca
a onda me leva
e me traz
como todas
as outras conchas.

domingo, 7 de novembro de 2010

abstrato





















estou frágil e me engano
tantas são as cores
que pincelam a ilusão
que é fácil baixar a guarda
minha capital é caos
nalguma falésia sua

desse veneno que comunguei
mil vezes comigo
pouco me resta
e agora me alimenta

imperfeito é o futuro
nessa minha retórica-farsa
parca e insuficiente
mas é o que ainda me sustenta

não tema meu coração
ou minhas dores profundas
não maldiga meu passado
que me fez assim
sou completa no pretérito

sábado, 9 de outubro de 2010

alvorece

























na penumbra quase luz
os cabelos negros
notívagos se vão
deixando a aurora
deitada na marina
ao som do mar
chegou-me menino
e vai embora
sem se explicar

não precisa dizer
mesmo que eu chore
sabe que eu sei
deu-me o seu melhor
o bem e o mal maior
nessa loucura que nos atinge
com fúria e mais querer
nos faz libertos
presos nesse laço efêmero

deixa-me que tudo
está calmo agora
o mar de meus olhos flutua
amanhece lá fora
e seu sol suado e nu brilha
entre todos os meus lábios
quero seu olho no meu
esse misto de solidão
e cura

terça-feira, 2 de março de 2010

Equador



























Se Henry Miller se calasse e sua boca se enchesse de formigas antes mesmo de se mostrar um exímio amante, não me refestelaria com os belíssimos trópicos que ele declinou tão bem.
Minhas expectativas nunca ultrapassaram o Trópico de Câncer, nem o de Capricórnio, elas se equilibraram tal qual o Equador.
Não me compararia a Miller nem ao relatar o menor suspiro de desejo intenso, nem ao menos numa linha do pós-guerra, mas humana que sou, estou tomada de febre do meio.
Poderiam dizer que é a febre dos trinta e cinco, que é o frisson da idade e eu poderia discordar dizendo que é além disso. Mas é, caro leitor, a minha palavra contra a sua, nem sei se tenho argumentos para convencê-lo do contrário.
Guardei por anos um silêncio pesado entre a leveza de devaneios e gozos mais íntimos. Não soube me expressar bem. Prendi-me por motivos errados e continuo cedendo ao que a boca cala e o corpo rasga. Equilibro-me entre fazer o que quero com o que esperam de mim, um exemplo plausível de Equador Perfeito.
Nego ser uma queda de braços, ou uma luta de boxe, embora me sinta nocauteada, é uma guerra de mãos e mesmo que pareça que uma quer sustentar a outra, evitando a queda, não há força suficiente para sustentar o desencanto preso entre os dedos da esperança. A fé é fraca e com tão pouca resistência a tarefa de segurar uma das partes vai se tornando cada vez mais árdua, cada vez mais perdida.
Equatoriais meus verbos secam no pretérito perfeito do subjuntivo e eu intransitivo-me.

domingo, 15 de novembro de 2009

Pedras ato III – pedra prazer
























mergulhou lasciva
em seu querer mais obscuro
o paradoxo de olhos fechados
vagou por mãos impunes
e armas eróticas

silenciosa mordia-se
na ânsia por dor
entregava-se a todos
com alma e peitos gastos

no seio esquerdo
alimentava o amante
e no direito um infante

com a ilusão certa
luzes do fundo do poço
olhos rasos e insatisfeitos
mais que masturbação
dos outros
menos que expiação de si

embutida de noites insones
ainda desejava
aquele que a desonrou
e coexistia com seu caçador
em seus orgasmos mais violentos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

cimo

sou querer empírico
responsabilizada de ser
resvalando-me na inércia
de não ser

tento abrir as portas
que me afastam de mim
mesmo condenada
à liberdade insólita
do não poder
cimo

épica e lenta descoberta
corrompida pelo ego
qual Sísifo interno-me
eterna jornada
no subir e descer
da pedra






pintura de Modigliani

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pedras ato I – pedra realidade

de madrugada
embriagado de nuvem
e azul cobalto
dormia

estático feito pedra
supunham-no morto
mas insistente no sonho
resistiu

de dia
homem-máquina
pés engrenagens
peito-polia
braços-corda
umbigo-corrente

durante a noite
não dormia
rasgava-se ao meio
bebida quente
barriga vazia

preso na terra
erguido por sonho
que não veio

obsoleta
peça de reposição
substituída
no fim de estação.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

nada faz calendários breves
ou queima os anos
como pavio de vela inútil

uma overdose
cheirada sobre
o santo sudário
nos dias, nas horas
de calvário
um pulo, um mergulho
talvez um atalho de terra batida
ao lado da estrada asfaltada

até as bulas de remédio
prometem
o que já não podem cumprir
apaziguar dores
salvar-me da mudez de sentido
da falta de sinônimos
para sofrimentos surdos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pedras ato II – pedra da loucura

“A única diferença entre um louco e eu,
é que eu não sou louco.” - Salvador Dali



olhos esbugalhados
mão trêmula
palavra aguda
agulhando a garganta

fervia do peito
à face
numa febre
quase convulsiva

parecia desarmado
mas a verdade dura
serviria de escudo
e atiraria a loucura
na realidade
dos outros.